quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre o tempo...

 
(...) és misterioso por ser claro e indefinível, por ser nítido e não vestir forma, por te sentir quando a mim não me toca. Faz do passado encontro e aconchego, jamais morada. Envolve-nos em tramas e temas entre os dias e entre as horas, minutos e incontáveis possíveis. Tu és também o vento, pensamento, o velho e o novo; filho do eterno que aguarda nossos domínios. És a glória dos reis e a queda dos reinos, o senhor dos destinos, palco de desatinos, mestre dos desapegos, a fome a empoderar desejos, testemunha de nós. O escritor silente presente à beira dos abismos, pai do infinito e dos horizontes. Curandeiro de amores, dono das distâncias e das saudades. Abstrato, assumes corpo no crescer das flores, na lembrança que castiga o peito, na sentença dos frutos e do adeus no leito. Do absurdo e do sensato faz lições quando convém, e adormeces pleno quando no Amor imerso. Suas inexistentes mãos sempre tem o que nos ofertar: o doce e o amargo entre seus amanhãs. Guardião dos caminhos, convite e espera. Em ti se legitimam as respostas e também as reticências. Impossível decifrar, inevitável saber. Tempo, sou todo teu e tu, inteiro meu.

(Guilherme Antunes & Milene Cristina)

Um comentário:

  1. " És a glória dos reis e a queda dos reinos, o senhor dos destinos, palco de desatinos, mestre dos desapegos, a fome a empoderar desejos, testemunha de nós.O escritor silente presente à beira dos abismos, pai do infinito e dos horizontes."
    Adoro estas grandes frases que parecen esvarar dos beizos de aedos épicos *w* Adóroas, ámoas, de verdade. A sonoridade, a musica, a paixón...

    Encantoume. Saúdos.

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