segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ao abrir a janela


Embrulhei cada pedaço do que foi decoração. Me desfiz daquele quadro que por muitas vezes parava em frente imaginando estar ali, felicidade eternizada. Do lençol , vazio corpo. Pedrinhas da viagem, pedaços do que foi história. Nas fotos do nosso quarto, o retrato, um instante na estante, aquele sorriso era eu. Vi desfiar a cortina branca, não querendo tapar o sol, parecia querer mostrar algo a mim, pois naquele momento via tudo em preto e branco aos poucos se apagando, não sei, sentia como se não mais existia. Mas mesmo diante a fuga de enfrentar tudo aquilo, precisei continuar, dor maior era voltar atrás, insistir no que foi. Renasci um pouco ao abrir a janela, havia cor lá fora.

Milene Cristina

domingo, 28 de abril de 2013

Pele


Naquela pele, onde em cada poro havia um pouco de amor, onde queimava em noites frias, esfriando-se quando o dia pedia lágrima, quando a dor latejava seu costume de alegria. Sentia abraços constantes mesmo estando só, muitas vezes foi sua própria companhia, era sensível diante a solidão, arrepiando-se em pensar não mais se arrepiar, não mais macia correr nas mãos , não mais vestir o leve, não mais breve aconchego ao cansaço alheio. Percebeu-se seca, não mais dourar do sol, nem mais o molhar da chuva. Era apenas pele sem amor.

Milene Cristina

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Habitar


Me acolha, recolhendo os abraços das manhãs,
me exponha nesses tantos vazios nossos,
observe meus olhos baixos por pensamentos nas alturas,
doe seus passos passeando em minha dor.
Abri-me em coração sem censura,
me tomando em ternura, fazendo louca a sensatez.
Ouça-me falar do mar, onde havia o céu de dois.
Me cale agora, descansando no que hoje fiz meu habitar.

Milene Cristina

                                                                         

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Nada pergunto


 
Hoje o tom é azul, saudade amarelou-se, cor sem vida, sentir que nada traz. Prefiro essa cor de céu, da paz que enfim fez em mim seu pouso, senti várias vezes seu vôo sobre minha alma, que me agarrava fazendo tudo se desprender, fazia que não via, desviava o olhar pra evitar o meu encontro. Mais que alívio entregar-me, o inaugurar em me ter nas mãos. Mesmo que seja apenas horas, nada pergunto, deixo-me sentir.

Milene Cristina

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Que voem voltando

Instalar a liberdade das palavras, que voem voltando . Chegando ao fim, onde tudo começa, querendo  em mim suas entregas, sem perguntas, me agradando as respostas mais absurdas, absorvendo meu vazio, trazendo a paz da inquietação. 
Milene Cristina
 

domingo, 21 de abril de 2013

(Des) ilusão


O vento que sai levando as folhas, trazendo o que não deixo esquecer, lembrando dor já sem nome, cessando o que é bonito, fazendo da cor mais viva, a mim cinza parecer. Não florescem meus dias, do que é noite faço dia , intermináveis as horas estendendo essa demora em mim. Minha voz já rouca pela fala interrompida, ampliando o opinar alheio. É um imenso sentir do que não sinto, esvaziando o vazio, infinito querer pelo desconhecido. Me repartindo nas faces que me cabem por falta de opção. Estou avulsa na terra da ilusão, me apegando a qualquer palavra que escuto passar.

Milene Cristina

sábado, 20 de abril de 2013

Disparada

Encolhida sobre a mesa, dividida entre a noite e a manhã, perdida no aperto vão de sua vida torta, entortando as respostas e entregas descabidas, nada cabe, nada sabe, invadindo sua multidão de nãos, se esvaiem as lágrimas, enquanto dá adeus ao sorriso forçado. Quer se despir, quer se vestir com outras vontades, saindo em disparada de si, correndo pro seu desencontro já tantas vezes adiado. Quer respiro em outros ares, novos tombos, com mudança ao levantar. Vai em busca do sossego ...Não quer calma, quer apego no que falta, no que ainda possa encontrar.

Milene Cristina

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Identidade

 

Esquentando o café pela manhã, posso ouvir o barulho da minha pressa, agonia por me tomar, reconhecer meu nome, minha identidade discreta, inquietude que me invade sem mudança. Sou discordância toda certa, absoluta decisão do talvez, onde sempre volto atrás recomeçando muitas vezes, me tornei refém do recomeço, com um círculo vicioso de buscar-me noutro rosto, outra vontade, por que a minha não sei . Tenho em meu nome composto, composição insatisfeita com o que vejo e não enxergo no espelho. Exagero de sonhos, entupindo a realidade que faz de tudo pra chamar minha atenção. Estou atenta, mais olho o outro lado, com olhos embaçados, propositalmente distraídos. Estou chamando por mim e não respondo.

Milene Cristina

quinta-feira, 18 de abril de 2013

...

(...) nesse momento,
o que era intenso,
fez-se nuvem do que eu não sei.




Milene Cristina



Hóspede

 
Quero me hospedar em girassol sempre a buscar pelo sol, e nas páginas do livro viajar, me inserindo na história, fazendo hora no que foi marcado da leitura noturna, pois não adormecem os sonhos do querer. Ser o pingo d'agua constante, fazendo mudar a rocha, melodia da insistência sutil. Me preferindo vento de verão, que se levanta alegre por gostar de seu papel no tempo.Ou quem sabe, ser a janela da menina, que sorri com os olhos, pois desenha a paisagem com seu imaginar . Ser então o inesperado, chegar sem aviso, mais com flores nas mãos, carinho nos olhos de saber lugar certo, por ser você quem eu esperava, quem guardava no tesouro do amor reconhecido , onde a alegria nunca folga, lugar esse, que não  rejeita a tristeza, tudo bem, a deixamos passar. Já acordada ,volto para o que nesse instante eu sou, um pouco dessas palavras, a vontade desse amor.

Milene Cristina

terça-feira, 16 de abril de 2013

Nossa dança

 
Falava baixinho
no ouvido da memória,
daquela história
que permaneceu.
 
Culpava
meus horários dispersos,
meus olhares incrédulos
na mansidão de seres meu
 
Aguçava
a solidão culpada,
remexendo o baú do ciúmes,
um museu do que faltou.
 
 
Respondeu-me com pergunta
feito brisa e carinho
levemente,
também baixinho
Somente isso o que pensou?
 
Me dizia
por que me esquecia

das noites
e chegada com flores,
envolvidos
em perfumes de amores
o fim da saudade
com o começo da tarde.
 
 
Sorri.
como dissesse em silêncio,
Tens sempre razão
feliz
eu me rendo,

 
Trouxe-me
as lembranças
do quanto fomos inteiros
esquecendo meus devaneios
 
quando me pegava aflita,
pois sofrer não mais havia,
sendo tudo tão completo
não sabia o que lhe dar.
 
Disse então que me acalmasse,
conheceste enfim
o amor
não há o que explicar.
 
Milene Cristina               

Do pouco

Adoço o que há de amargo do destino que negamos ser o nosso. Ouço promessas sem sentir, os que prometem nada me dizem. Coloco flores em cantos vazios, me preenchendo com o belo, a beleza do que é natural. Escolhendo o que abraçar, se o real ou o fácil imaginar. A fragilidade machuca meu lado forte, desinstalando meu querer. Abuso do silêncio, lugar que prefiro em mim. Muitas vezes me vejo cansada da calmaria que fiz decreto. De manhã posso ter certezas antes nunca aceitas, ao cair da tarde a certeza de que não sei quem sou. E é tudo tão profundo, difícil o alcançe, estou sempre em busca do que guardei. Vejo com fascínio os que se entregam, que se encontram sem a procura, se deixam encontrar. Procuro o instante do amor, que faz a mudança ao redor, pois já fez morada por dentro. E no agora, meu possível é aproximar o tudo ainda suspenso, do pouco em que me faço.

Milene Cristina

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Havia beleza

 
E é bem vindo o nascer do sol,
depois do adeus que dei as lágrimas.
Havia beleza, enquanto lavavam minha alma,
que passa a barreira de ser sensível.
Eram belas, pois limpavam-me do que havia de ruim,
e com os olhos mais limpos pelo banho tomado,
destacava o que não mais via de bom.
O consolo verdadeiro de se repor.
Reencontrei a vontade de amar
perdida nos amontoados de enganos conscientes.
Me vi ingrata nesse momento,
ao desprezo que entreguei ao amor,
que por ser paciente estava à minha espera
e nada cobrava.
Sabia de cada passo que dei contrário à Ele,
mais estava o tempo todo em meus caminhos,
me espanta como fiquei cega com a poeira cinza da negação.
Não vou lamentar, estou inteira,
por esse encontro que aguardava sem saber.

Milene Cristina

sábado, 13 de abril de 2013

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

 
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

 
Sou aquela que passa a ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca
 
(Florbela Espanca. Do livro de Mágoas-in Sonetos Amadora, Portugal-Bertrand. 1978)

Fogo

Do fogo que consome meu frio, retiro a fascinação

No fundo a voz. Não mecha com isso menina
vai queimar sua mão
Melhor seria, que o arder fosse apenas em carne
Logo passa
Queimei os profundos sentimentos que guardava,
proteção sem valia
Que de tão fria, se agasalhou em quentes braços de palavras de faces brandas,
que descançava em varandas de verão.
Abrasou em exagero,
da porta aberta do lar antes inatingível.
Apenas chão.


Milene Cristina

Da resposta

E no amanhecer da dor, que findou-se ao florescer da resposta ao pedido feito em silêncio. Oportuno amanhecer do sol, que havia se escondido em meu nublado coração, acostumado em vestir-se com roupas que não lhe cabe, beijos não seus. Sinto-me aliviada por poder continuar com a mania de usar o não como escudo. Reconheço. Não sei lidar comigo mergulhada em paixão. Costumo perder o rumo, dar corda ao ciúme, exagerar em abraço, não o deixando ir. Me prendendo em vazias palavras, mantidas por vaidade, vontade que fosse saudade. Verdade de quem ama. O gritar de gestos incoerentes, implorando, pra que me deixes ir.
 
Milene Cristina

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Entrega inocente

Dos ventos febris de corações sem encontro, aguarda-se enganos e planos ainda em papel. Do véu, apenas o branco, uma porção do amor. Particularidade encontrada ao lado. A intensidade do pouco, avistando os fragmentos do amanhã. No pedido, a entrega inocente do agora, deixando-o passar sem perceber.

Milene Cristina

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre o tempo...

 
(...) és misterioso por ser claro e indefinível, por ser nítido e não vestir forma, por te sentir quando a mim não me toca. Faz do passado encontro e aconchego, jamais morada. Envolve-nos em tramas e temas entre os dias e entre as horas, minutos e incontáveis possíveis. Tu és também o vento, pensamento, o velho e o novo; filho do eterno que aguarda nossos domínios. És a glória dos reis e a queda dos reinos, o senhor dos destinos, palco de desatinos, mestre dos desapegos, a fome a empoderar desejos, testemunha de nós. O escritor silente presente à beira dos abismos, pai do infinito e dos horizontes. Curandeiro de amores, dono das distâncias e das saudades. Abstrato, assumes corpo no crescer das flores, na lembrança que castiga o peito, na sentença dos frutos e do adeus no leito. Do absurdo e do sensato faz lições quando convém, e adormeces pleno quando no Amor imerso. Suas inexistentes mãos sempre tem o que nos ofertar: o doce e o amargo entre seus amanhãs. Guardião dos caminhos, convite e espera. Em ti se legitimam as respostas e também as reticências. Impossível decifrar, inevitável saber. Tempo, sou todo teu e tu, inteiro meu.

(Guilherme Antunes & Milene Cristina)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Você. Meu livro

 
Movo-me no silêncio, entre falas guardadas pela ausência da certeza. Nas janelas fechadas, abre-se meu querer indeciso complicando o simples, mudando o sentido. Convidando-me à passear onde as novidades não mais chegavam. Adoçando meu café frio, aquecendo minhas mãos, no quente lugar da descoberta. E no lamento do dia que se vai, entrego-me ao impulso de folheá-lo mais uma vez, fiz de você meu livro.

Milene Cristina

domingo, 7 de abril de 2013

Sapato baixo


Da alma imensa de pequenas coisas, detalhes necessários a Ela. Tomada de acanhamento natural, gosta de mergulho em versos que fazem doer, lembrar do que achava inesquecível. Há sempre em seus contornos, a  procura pra não se perder, oscila entre mulher e menina . Castiga-se em sua costumeira falta de habilidade em dizer não. Faz sonhar melhor, quando se deixa envolver no fim de tarde, recebendo o carinho do vento em seu rosto, o lento sair do sol destacando as nuvens, fazendo parecer cama de abraço, perfeita pra descanço, o amansar da urgência em amar ou a ausência dessa vontade. Em seu querer, labirintos em meio à um campo vasto de liberdade. Usando seu sapato baixo, segue com suas palavras anotadas por auto-defesa, da clareza de que alí se encontra, montando e desmontando o sentir.

Milene Cristina

sábado, 6 de abril de 2013

Desapego da ternura

 
No carinho de minhas mãos
em seus cabelos,
 costume.
Incontrolável permanência em você
Me atiro retirando o choro contido,
de distâncias presentes em nossos silêncios
Há em nós o desapego da ternura,
Constatação ao rolar das horas
 que imploram por não deixá-las passar
Na pouca luz do quarto,
 posso enxergar minhas urgências
Perturbando o dormir forçado,
O abraço que não quero sentir
não é mais meu..
Se faz pequeno o lugar,
Sufoca-me o espaço desocupado em mim
Deixo sobre a mesa, o papel do adeus
já subentendido em meu olhar.

Milene Cristina




Varais


Entre os varais, não só o estender de roupas lavadas em dia sem sol, enquanto torço minha blusa usada em dias tão felizes, vejo no cair dos pingos fragmentos do que vivi, do não que doeu, do abraço que confortou , da inquietação da decisão à se tomar. Vejo no secar lento, pois não há vento; a percepção de que passou o que achava ser minha vontade, e que à blusa não mais pertencia. Algo mudou em mim, da semana passada que me aqueceu do frio. Devo então doá-la, há um pedido que me vista com outros motivos, com outras cores de tons que ainda não sei quais são, mais já me iluminam só com a ideia de mudança.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Paisagem

E de seus olhos enxergar o mais belo da vida, o despertar do que adormece no medo. Trazer essa vontade à ti em se enxergar também nos meus, na transparência dos defeitos, na cor bonita das qualidades ainda por se conhecer. Perguntas leves com breves respostas. Aproveitar o tempo, os minutos à passar. Desenhando nossa paisagem, nosso céu, nosso amor.
 
Milene Cristina

terça-feira, 2 de abril de 2013

Clarice Lispector in De Amor e Amizade

 
O prazer é abrir as mãos
e deixar escorrer sem avareza
o vazio pleno que se estava
encarniçadamente prendendo.
E de súbito o sobressalto:
 ah,
abri as mãos e o coração
e não estou perdendo nada!
E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre!.
 
Clarice Lispector

Minhas asas são suas

 
E que o meu destino, faça o encontro com o seu, sem pressa, há o tempo de nós.Há em mim a certeza louca do amor guardado, sem dano algum, sou atenta ao extremo com ele. A proteção livre, minhas asas são suas. Já posso sentir o beijo, reconheço. No abraço forte a solidez da minha espera. Na alma calma, a sua a me acordar, tenho sonhado em demasia, há de se ter algo melhor que o sonho, o motivo do sonhar. És definido meu amor.
 
Milene Cristina

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Das reais bobagens (Confabulando)


Há em mim a busca clara no escuro caminho que me foi roubado, sim roubado. O amar demais, desenfrear consciente ao qual me dei. Entreguei o que achava ser o bastante, mais não havia o cessar do que apelidava amor, sugavam-me as noites mal dormidas, as brigas diurnas das semanas que se foram, tirava-me o equilíbrio do sorriso em paz, em troca devolvia-me o vazio de que iria mudar. Por vezes desejei não ter desviado meu olhar do caminho que era meu, desprezei a liberdade. Não há culpados, quem sabe o destino? Confio nele, não faria isso comigo. Talvez escolhas aliadas ao acaso, confabulando com meu jeito desastrado para o amor.
 
Milene Cristina